Espiritualidade Filocálica

Espiritualidade Filocálica
Introdução à Espiritualidade Filocálica
por Olivier Clement 

Capítulo VIII -  O Método

Os monges estabeleceram um "método" para sustentar o intelecto em seu esforço de interiorização e de despojamento. Este "método" utiliza posições e ritmos do corpo, bem como uma breve invocação no mais das vezes centrada no Nome de Jesus, e pretende responder à ordem escriturária de "orar sem cessar". Ela é flexível, aberta, mesmo quando tentada à mecanização nos lugares em que se torna a única via de oração e mesmo objeto de orgulho.

O corpo do homem está destinado, diz são Paulo, a se tornar “templo do Espírito Santo”. Ao ritmo do coração deve se acomodar o da respiração, mais fácil, senão de dominar (o que parece ser estranho ao espírito filocálico: não se trata de um yoga), pelo menos de oferecer. Segundo o Gênese, vivamente comentado sob este ponto por santo Irineu de Lyon, o homem é barro cósmico manufaturado pelas mãos de Deus e animado por seu sopro: “Quando o Senhor formou o homem do pó do chão e insuflou em suas narinas um sopro de vida, o homem se tornou vivo”. Quando utiliza sua respiração para orar, o homem reconhece que seu sopro lhe vem de Deus, que ele é sustentado pelo Sopro divino.

Ainda mais: por toda eternidade, no mistério do Verbo trinitário, o Sopro do Pai carrega sua Palavra: “o espírito é o anunciador do Verbo”, diz são João Damasceno. Assim, quando o sopro humano anuncia o Nome do Verbo encarnado, ele se une ao próprio Sopro de Deus. E é este sopro humano penetrado pelo Espírito que irá abrir o “coração” profundo. O ritmo de nossa respiração, que é o mesmo de nossa caminhada, torna-se o de nossa peregrinação, exterior e sobretudo interior, em direção ao “lugar do coração”, que é também o “lugar de Deus”.

O Nome, na Bíblia, não é subjugado por uma força, como é frequentemente o caso nas magias arcaicas, mas revelação velada-desvelada do segredo da pessoa, num caminho de comunhão. Não se segura, não se manipula o Inacessível. Ninguém mais, de resto, sabe vocalizar o Tetragrama. Mas, para os cristãos, e segundo uma expressão profunda do Padre André Scrima, Ieoschouah é um nome-verbo que significa “Deus salva, liberta, afasta” - para as lonjuras do Espírito. A Cruz pascal manifesta Deus como amor libertador, como Comunhão – alteridade total ao mesmo tempo em que unidade total – que se comunica a nós. Quando se diz: “Senhor Jesus, Filho de Deus”, é o mistério trinitário que está sendo invocado por intermédio do mistério de Cristo: a palavra “Senhor” atesta a divindade de Jesus, a palavra “Deus”, como em todo o cristianismo original, designa o Pai, fonte da divindade, a palavra “Cristo”, Messias, Ungido, se refere à unção do Espírito, ao Espírito como unção. O Espírito repousa no Filho por toda eternidade e constitui a unção messiânica de Jesus.

A ordem de “orar sem cessar”, ordem de Jesus retomada por Paulo, supõe que a prece representa o próprio ser do homem, a relação que o constitui, a resposta ao apelo que o torna “imagem de Deus”. Com certeza isto vale parcialmente também para o cosmo, mas este, como dizia Orígenes, é um logos alogos, e é ao homem que cabe expressar sua celebração sussurrada.
O “método” remonta provavelmente ao monaquismo original, podemos dizer aos primeiros tempos do cristianismo por ser muito antigo, sem duvida evangélico, símbolo do peixe assim como as iniciais das palavras que o compõem. Ichtus, peixe, sugere com efeito Iésous Christos Théou Uios Soter ou Sôson, ou seja, “Jesus Cristo Filho de Deus Salvador ou Salve (a nós)”. Desde os primeiros tempos do monaquismo encontramos a repetição de fórmulas curtas: “Senhor, como quiseres e como sabes: tem piedade”, “Glória a ti, Senhor”, ou a frase de um salmo, como por exemplo o que recomenda Cassiano: “Meu Deus, vinde em meu auxílio. Senhor, apressai-vos em socorrer-me”. Comum também é o Kyrie Eleison, “Senhor, tem piedade”, com a palavra eleison evocando não a comiseração, mas presença, carinho, misericórdia.

Perguntaram ao abade Macário: como orar? Ele respondeu: “Primeiro, não há necessidade de se perder em palavras. Basta estender os braços e dizer: “Senhor, como queres e como sabes, tem piedade”. Se o combate os oprimir, digam apenas: Socorro! Deus sabe o que lhes convém e terá piedade de vocês”.
A partir do século V com Diádoco de Foticéia, mais tarde no deserto de Gaza, depois no mosteiro do Sinai, o Nome de Jesus se introduz na fórmula de imploração até que se chegue, durante a Idade Média, em Athos, à formula que se tornou clássica: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende piedade de mim, pecador”, na qual estão amalgamados os apelos evangélicos do publicano e do cego.

A utilização de uma fórmula breve para pacificar e concentrar o intelecto é universal: encontramo-la por exemplo na Índia (o japa-yoga), no amidismo japonês (o nembutsu), no dhikr dos sufis muçulmanos (que sem dúvida o emprestaram dos monges do cristianismo oriental). É por isso que um Augieras pode dizer que os monges athonitas não são propriamente cristãos mas preservam um segredo imemorial. Esta ilação não deixa de ser feita dentro de uma perspectiva fundamentalmente cristã. A multiplicidade das fórmulas empregadas originalmente e muitas vezes ainda hoje mostra que não se trata de um mantra mas de uma relação, e que a prece não significa a passagem do eu ao Si, mas antes uma comunhão do si “pecador” com o Outro. Apelo ao socorro, celebração confiante, selo de bendição, a oração se torna em nós um impulso do Espírito que nos faz dizer que Jesus é o Senhor e, neste, com ele, ousar chamar o Pai, Abba, o Inacessível.

Os textos do monaquismo antigo já sugerem uma ligação da prece com a respiração. “(Antônio) chamou seus companheiros e lhes disse: Respirem sempre a Cristo”. “Que a memória de Jesus se una inteiramente à sua respiração e você conhecerá o significado do silêncio (hesíquia)”. Chamar a Jesus equivale a tomar pouco a pouco consciência de sua presença nas “moradas” do “coração”: “Mantenhamos sempre os olhos no fundo de nosso coração com uma lembrança incessante de Deus”, escrevia no século V Diádoco de Foticéia.

No entanto, o “método” não foi escrito – e sempre de um modo incompleto – senão nas épocas mais perturbadas, quando a transmissão de mestre a discípulo estava comprometida. Isto equivale aos séculos XIII e XIV, quando da agonia do Império Bizantino, e ao final do século XVIII quando a renovação filocálica encerrou um longo período de decadência.

Os textos de que dispomos recomendam sentar-se num local afastado, calmo, silencioso (enquanto que os ofícios litúrgicos e a salmódia são rezados em pé). A postura recomendada consiste numa inclinação da cabeça, curvando as espáduas, com o olhar interior fixado no coração. Às vezes a curvatura se acentua como a de Elias que, depois de ter confundido os profetas de Baal e  posto fim à seca, longe de se orgulhar, “subiu ao cume do monte Carmelo e, inclinando-se para o chão, colocou seu rosto entre os joelhos”.

Utilizando uma respiração lenta, pacificada, unimos a ela o intelecto que, prolongando o movimento do ar, tenta penetrar “dentro do coração”. Esta é a união do intelecto com o coração, tão importante na tradição filocálica (mas que não implica forçosamente o uso destas técnicas corporais). A invocação, primeiro alternada, docemente oral, docemente mental, depois unicamente mental, se torna cada vez mais breve e silenciosa. Segundo Calixto e Inácio Xanthopouloi, depois Nicodemo o Hagiorita, a fórmula, a partir do momento em que nos persuadimos da presença e do amor de Cristo, se desvencilha do “tem piedade de mim, pecador”, abrevia-se em “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus” e finalmente em “Jesus, Jesus, meu Deus amado” (Nicodemo), e depois de tudo apenas no Nome de Jesus. Ela se torna então monológica, ou seja, constituída por uma única palavra. Simultaneamente, instantes de silêncio, como uma espécie de “planar interior”, prolongam a invocação que acaba por fundir-se no silêncio para se tornar como que sua pulsação.

No mais das vezes o coração espiritual é identificado ao coração físico, mas encontramos, de um lado no século XII e de outro no final do século XVIII, indicações um pouco diferentes, sem dúvida complementares.

Na segunda metade do século XVIII, um monge ucraniano baseado na Moldávia, Basílio de Poiana-Marului (da Clareira das Ameixeiras), situou o “coração” espiritual um pouco acima e à direita do coração físico que para ele era ligado ao thymos, ao ardor, sobre o qual deve reinar o coração espiritual. Como Nicodemo o Hagiorita, Basílio colocava em relação com a Trindade a reunião no “coração” das três “partes” da alma, mas também, e este é uma característica sua, a comunhão do homem com seus irmãos, pois a prece descobre, em Cristo, o Adão único e intercede por todos os homens.

Nenhum desses textos explica realmente como acertar a pronúncia das palavras da prece, nem o ritmo da respiração. Gregório o Sinaíta aconselha, para evitar uma certa mecanização, alternar entre “Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim” e “Filho de Deus, tem piedade de mim”. Somente Nicodemo o Hagiorita, em seu Enchiridion (Manual) propõe que se diga toda a oração em uma longa inspiração seguida de uma certa retenção, rejeitando-se a seguir o ar rapidamente, pois a expiração, diz ele, dispersa a atenção.

Somente no século XIX, no célebre "Relatos de um Peregrino Russo", escrito entre 1855 e 1860 e que, sob sua aparente simplicidade, denota um marcante conhecimento da via hesiquiasta, encontramos a indicação que todos, ou quase todos, utilizam hoje em dia: dizer “Senhor Jesus Cristo” (ou “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus”) na inspiração, e “tem piedade de mim (pecador)” na expiração.