Encontrando um Pai Espiritual

Encontrando um Pai Espiritual


Recebi um e-mail ontem de alguém que pedia conselhos sobre como encontrar um pai espiritual. Eu tive que dizer a ele que encontrar um pai espiritual, em um sentido, é muito difícil e pode levar uma vida inteira. De fato, se encontrar um pai espiritual significa que ele está procurando um relacionamento com um mentor espiritual que seja como o que se lê na Filocalia ou nos Apotegmas dos Padres do Deserto, ou na Escada da Ascensão Divina, então eu teria que dizer que é quase impossível encontrar um pai espiritual. Por outro lado, e em outro sentido, é muito fácil encontrar um pai ou mãe espiritual. Encontrar um mentor espiritual neste sentido tem principalmente a ver com a humildade do buscador e a vontade de ser ensinado, e muito menos a ver com as qualificações do mentor em potencial. 


Deixe-me explicar: nos escritos dos Santos Padres, especialmente os antigos Padres, nos são dados como exemplos para serem imitados as muitas histórias de obediência absoluta e inquestionável dos noviços aos seus pais espirituais. São contadas histórias de homens santos que se submeteram sem questionamento e com profunda humildade aos pais espirituais e que se tornaram santos por causa da humilde submissão. Nos falam de anciãos clarividentes, cheios de amor, que guiam infalivelmente seus filhos espirituais no caminho para a semelhança com Deus, e nos falam sobre as crianças espirituais sofrendo duras conseqüências como resultado da desobediência a seus mentores espirituais. Esta tradição de discipulado sob um guia espiritual sábio e experiente é uma parte essencial da tradição cristã ortodoxa.


No entanto, esta forma de paternidade espiritual é muito mal compreendida nestes dias e, conseqüentemente — mesmo que involuntariamente — às vezes resulta em relacionamentos insalubres e até mesmo abuso espiritual. Em tais casos, em vez de ajudar alguém a crescer em Cristo, um relacionamento inadequado ou incompreendido com alguém que você considera ser um pai ou mãe espiritual (ou com alguém que se apresenta como pai ou mãe espiritual) pode resultar em uma infância espiritual prolongada, anos de confusão ou raiva, e mesmo em um completo afastamento de Cristo.


O fruto deste ensinamento incompreendido ou mal aplicado sobre a paternidade espiritual começou a ser mais claramente visto pela primeira vez na Rússia dos séculos XVIII e XIX. E foi em resposta ao abuso e sofrimento que ele tanto viu e experimentou, que Santo Inácio Bianchaniov publicou em São Petersburgo, em 1867, a sua Oferta ao Monaquismo Contemporâneo. A tradução inglesa deste texto, publicada pela primeira vez em 1970, é chamada The Arena: Guidelines for Spiritual and Monastic Life.  Ela foi reimpressa várias vezes em Inglês, a mais recente sendo de 2012 por Holy Trinity Publications.


Qualquer um que seja sério sobre encontrar um pai ou uma mãe espiritual deve — e eu enfatizo aqui o "deve" — ler este livro. O que estou prestes a dizer sobre encontrar um pai espiritual foi influenciado em grande parte por este livro, embora eu não siga a sua apresentação exata. Um pouco do que estou a ponto de dizer também é influenciado por minha própria experiência e a sabedoria que adquiri aqui e ali de pessoas muito mais sábias do que eu.


Primeiro, quando buscamos um pai ou uma mãe espiritual, precisamos perceber que vivemos em um mundo muito diferente do mundo que produziu os santos Padres e Mães que lemos nos antigos escritos espirituais da Igreja. Santo Inácio chega até a dizer (e estou aqui parafraseando) que já não existem pais espirituais, pelo menos não como aqueles sobre os quais lemos, por exemplo, na Escada da Ascensão Divina ou nos Apotegmas dos Pais do deserto. Não sei se posso concordar completamente com Santo Inácio aqui. De fato, pode haver um ou dois ou três santos homens ou mulheres escondidos em todo o mundo, homens e mulheres que brilham com as Energias Divinas de Deus, que oram sem cessar e que são permeadss pelo amor de Deus. Eu ainda acredito (ou, pelo menos, tenho esperança) de que ainda existem hoje algumas pessoas santas no mundo. No entanto, esse é o ponto neste parágrafo: se existirem homens ou mulheres santos, dignos de obediência completa, se houver algum no mundo de hoje, eles são muito poucos e eles estão escondidos, dedicando sua vida à oração.


Esses santos são muito difíceis de encontrar. Eles se escondem propositalmente. E, se você ou eu encontrássemos uma pessoa tão sagrada, poderíamos entender a ele ou a ela? Esse santo nos entenderia? Realmente, parece-me bastante tolo, e talvez lhe pareça também se você parar para pensar sobre isso por um instante, para pensar que eu, como uma pessoa ocupada vivendo no mundo, poderia realmente ser ajudado por um homem ou mulher que viveu em Oração constante nos últimos quarenta anos. E se encontrássemos tal pessoa e confessássemos nossa luta, digamos, assistindo televisão demais ou não dizendo sempre as nossas orações matutinas, fofocando sobre um colega de trabalho, o que você esperaria que esse santo monge lhe desse como conselho além das palavras de Jesus: "Bem, se quiseres ser perfeito, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e vem viver em minha caverna comigo pelo resto da tua vida e ficará curado do seu problema com fofocas ".


A realidade é que isso realmente curaria seu problema com fofocas, mas a menos que você seja chamado para a vida eremítica (a vida de um eremita), é um medicamento muito forte para você. E se você tentasse seguir este conselho como uma pessoa não chamada para a vida eremitica, você realmente experimentaria um grande dano espiritual. Mas que outro conselho poderia dar esse santo eremita? É de fato o caminho que ele ou ela encontrou para a salvação. É o que ele ou ela sabe que funciona. E é o conselho perfeito para alguém que é chamado a ser um eremita.


E isso muitas vezes esquecemos quando lemos a Filocalia ou alguns outros escritos sagrados da Igreja. Estes foram escritos principalmente por monges para monges ou, por vezes, mesmo por eremitas para eremitas. Claro que há muita gente no mundo que pode aprender com esses escritos, mas grande humildade e discernimento são necessários. O conselho projetado para os monges que vivem no deserto de Scetes (por exemplo), no Egito do século V, tem que ser ajustado e modificado para se aplicar de forma saudável a alguém que vive no mundo de hoje.


É como a medicina. A mesma dose de remédio que cura um adulto saudável de 80 kilos pode matar um bebê. Devemos estar muito conscientes do nosso estado espiritual imaturo e enfraquecido, e do chamado de nossas vidas no mundo quando buscamos aplicar a medicina espiritual que foi prescrita para homens e mulheres espirituais maduros, chamados à vida monástica.


E este é o segundo problema em que nos deparamos quando estamos à procura de um pai ou mãe espiritual: tendemos a ter uma visão muito alta de nós mesmos e de nossas necessidades como crianças espirituais. Este orgulho (ou no melhor dos casos, simplesmente ignorância) leva-nos a pensar que precisamos de alguém como São Serafim de Sarov ou São Pacômio o Grande para ser nosso pai espiritual. Nós erroneamente pensamos que somente uma pessoa tão santa poderia nos guiar no caminho para a semelhança de Cristo. Mas a realidade é que se não podemos ser guiados por pessoas que Deus já colocou em nossa vida, então estamos nos enganando a pensar que um pai ou mãe espiritual mais santo faria toda a diferença para nós.


Lembre-se, Jesus disse, "aquele que é fiel no pouco é fiel no muito". Se não podemos ser fiéis na pequena orientação espiritual que Deus já colocou em nossa vida, como podemos esperar não sermos chamuscados pela santidade ardente de um autêntico santo? A humildade é chamada: humildade e discernimento.


E isso eu acho que é o terceiro assunto que deve ser tratado na busca de um pai espiritual: humilde discernimento. Meu bispo disse sabiamente que é responsabilidade de cada um de nós ouvir com atenção e respeito aqueles que Deus colocou em nossas vidas como mestres, padres, pais e mentores. No entanto, é também nossa responsabilidade separar ou discernir o que nos é útil no que dizem e no exemplo de sua vida, guardando e imitando as coisas que achamos úteis; e então, educadamente ignorarmos o resto.


Nosso problema é que queremos uma relação com um pai ou mãe espiritual que seja infalível, que não exija nenhum compromisso de nossa parte além da mera obediência mecânica. Mas tais relações não existem: pelo menos não como uma relação de vida entre um pai e filho espiritual. Tal relação mecânica pode levar a nada além da morte. Não somos máquinas.


O elemento que falta em nossa compreensão equivocada de uma relação desejada com um pai ou mãe espiritual santo é o amor. A razão pela qual a obediência absoluta era possível e saudável entre os Santos Padres que lemos é que eles amavam absolutamente. Além da santidade e da humildade, o amor permeava todos os aspectos da relação do pai espiritual com seu filho. E nos raros casos em que o pai espiritual estava perturbado, foi a santidade, a humildade e o amor do filho espiritual que atraiu a Graça de Deus para esse relacionamento. Santidade, humildade e amor: é isso que faz toda a diferença.


Mas o problema é que não somos santos, humildes ou amorosos, e essa é a razão pela qual temos que começar pequenos. Todos nós temos que começar onde estamos e com aqueles que Deus já colocou em nossa vida. Se pudermos nos humilhar e escutar o que dá vida e ajuda no conselho dado por aqueles que já estão em nossas vidas, poderemos chegar a ser capazes de ouvir o que é a dádiva daqueles que Deus pode trazer em nossas vidas no futuro.


Uma coisa é certa: se agora você não pode se submeter e obter bons conselhos e ajuda daqueles que Deus já colocou em sua vida — dicernindo e colhendo o que lhe edifica e lhe dá vida e educadamente ignorando o resto — então você certamente não encontrará boa orientação espiritual nem mesmo na Montanha Sagrada (Monte Athos) ou mesmo de um genuíno Ancião de Deus, caso encontre um. Você não encontrará um bom conselho espiritual, não porque ele não esteja lá, mas porque você não se treinou para ouvi-lo. Você não começou ouvindo a pequena sabedoria que Deus deu àqueles que já estão em sua vida, para que lentamente cresçam para ouvir a sabedoria daqueles que são mais espiritualmente avançados.


Eu conheci pessoalmente várias pessoas que foram para a confissão e receberam conselhos espirituais de pessoas que têm a reputação de ser Anciãos Espirituais. Algumas voltaram dessa experiência ajudadas, encorajadas e fortalecidas. Outras, indo para os mesmos pais espirituais, tiveram suas vidas despedaçadas e passaram anos em confusão e frustração.


Todos nós queremos um atalho, um caminho seguro para o céu. E muitos de nós imaginaram que encontrar um pai espiritual verdadeiramente santo nos colocaria neste caminho. Mas não há atalhos na vida espiritual. Todos nós, cada um de nós, devemos nos humilhar e nos submeter aos outros e assumir a responsabilidade por nossa própria vida. É a tensão, ou melhor, a respiração de nossa vida espiritual: inalar, exalar; inalar exalar; Inalar (submeter-se humildemente), exalar (discernir humildemente); Inalar (submeter-se humildemente), exalar (discernir humildemente). Esta é a vida espiritual. Apenas inalar ou apenas exalar é morte. Mas para crescer em Cristo, devemos respirar.