Por que Oramos...

Por que Oramos...

Um jovem perguntou ao mestre: “O que é orar?”. E o mestre respondeu: “Orar é experimentar Deus!”.

Ficou do mesmo jeito, na cabeça do jovem... e aí ele perguntou: “E o que é experimentar Deus?”. E o mestre explicou: “Experimentar Deus é cheirar a Deus!”.

Piorou! O nó se apertou na cabeça do jovem... e ele ousou ainda perguntar: “Mas... o que é cheirar a Deus?”.

E foi então que o mestre contou uma parábola:

“Um dia, Deus se aproximou de uma pessoa e deu para ela um pequeno vidro, contendo a sua divindade, a sua Graça. A pessoa ficou encantada! Naquele vidro, em suas mãos, ela tinha a divindade, a Graça de Deus, o próprio Deus! Ela quase não podia acreditar... e suas mãos quase não conseguiam tocar aquela preciosidade... Correu para casa, arrumou um fio de ouro, pendurou nele o vidro sagrado e o colocou religiosamente no pescoço, como um adorno poderoso que poderia ostentar por onde andasse.

Aconteceu depois que Deus ofereceu outro vidro igual a uma outra pessoa. Também ela ficou extasiada e seu coração não podia conter a sensação profunda de estar tocando a essência de Deus em suas mãos! Correu para casa e preparou um altar de rara beleza, ornou-o de pedras preciosas e quadros valiosos, acendeu velas e incenso, para que aquele vidro que continha o próprio Deus pudesse ser adorado.

O mesmo vidro foi oferecido por Deus a outra pessoa. O fascínio foi tão grande, que esta terceira pessoa não agüentou de curiosidade e a sua ansiedade a fez correr para o laboratório e aí ficou analisando aquele vidro, refletindo, tirando conclusões e elaborando discursos a respeito da natureza do vidro que continha o próprio Deus.

Uma quarta pessoa foi presenteada por Deus com um vidro igual. Também esta pessoa ficou seduzida e fascinada pelo mistério que estava tocando... mas logo, logo, esta quarta pessoa abriu o vidro, derramou-o na sua cabeça, respirou fundo sentindo o pefume que se derramava sobre ela... e saiu por aí, espalhando aquele perfume por onde passava”.

Cheirar Deus e cheirar a Deus. Respirar o mistério de Deus, saborear sua presença... e sair por aí espalhando o cheiro de Deus, na vida das pessoas e no mundo.

É isso a oração: cheirar Deus! E é para isso a oração: para que, inebriados pelo cheiro de Deus que sua presença experimentada em nós derramou, possamos andar por aí cheirando a Deus! Quem ora, cheira Deus e cheira a Deus!

Quem faz de Deus um “objeto” de ostentação pessoal, quem O coloca no altar distante de uma adoração estereotipada ou quem se satisfaz com análises e discursos intelectuais acerca de sua natureza... não cheira Deus e nunca poderá cheirar a Deus! Pode carregar muitos sinais externos de Deus, pode falar muito com Deus e poderá falar muitas coisas a respeito de Deus... mas não cheira Deus nem cheira a Deus!

A sede de infinito que nos perpassa, clama por Deus e não se contenta em saber sobre Deus pois, como já dizia Santo Inácio de Loyola,“não é o muito saber que sacia”.

Buscamos a experiência de Deus não apenas para nos deliciarmos bebendo seu perfume, mas para que depois possamos espalhar seu perfume pelo mundo aonde vamos.


Não cheiramos Deus para ficar com seu perfume. Cheiramos Deus para cheirar a Deus! Mas sabemos que nunca poderemos cheirar a Deus, se não cheirarmos Deus!

Aí nasce a necessidade da oração profunda, como espaço de encontro com Deus na intimidade de nosso ser, ao nível de nossa essência que se encontra e se funde na essência de Deus que encontramos, pois Ele nos habita. Fomos criados à sua imagem e semelhança; temos em nós o sopro de vida que sobre nosso ser Ele insuflou para que nos tornássemos seres viventes; seu amor que nos criou, nos habita e nos sustenta e nos mantém vivos numa relação de cuidado; somos templos do Espírito de Deus... e por isso podemos encontrá-Lo e com Ele entrar em comunhão profunda, em união com o Ser que nos faz ser!

Perceber presente o Deus que está sempre presente em nós... alimentar-se dessa presença amorosa, encostar nosso coração no coração de Deus, deixar que ele seja tomado pelo Amor, embebedar-se do perfume de Deus... para depois sair por aí cheirando a Deus e comtemplando-O também presente na vida, nos acontecimentos, na realidade, nas lutas do povo e nos clamores da gente, no trabalho e na arte, no lazer e na cultura, no compromisso, nas alegrias e nos sofrimentos, no outro e nos outros, no mapa por onde nossos pés fazem história...

Cheirar Deus, profundamente! Deixar que o Amor tome conta da vida por inteiro... para cheirar a Deus, para que os outros e a criação inteira possam também respirar, no ar que deixamos por onde andamos, o cheiro de Vida e, seduzidos por esse perfume, também eles busquem a fonte onde o Amor é e de onde o perfume nos vem!


Pe. Domingos Cunha - Meditação Cristã, Uma Oração Integradora.