A Vida Espiritual do Sacerdote Cristão

A Vida Espiritual do Sacerdote


É certo, naturalmente, que ao falarmos em oração devemos estar alertas à inclinação de pensarmos nela simplesmente como meio de conseguirmos o auxílio de Deus como nos convém. Contudo, para o sacerdote, é ela a única fonte de poder pastoral. Aptidões intelectuais e sociais, boa homilética, capacidade para organização, ajudam muito no seu trabalho. Mas não são essenciais ao desempenho do ministério. A oração o é. O homem cuja vida é semeada de oração e cuja comunhão com Deus vem em primeiro lugar ganhará almas; sua própria vida mostrará ao mundo o poder de atração da realidade, a exigência e a capacidade transformadora da vida espiritual. Em comparação, todas as outras capacidades que possa Ter não são tão importantes. O fato é que ele se transforma em testemunho daquilo que proclama. Podemos ensinar com muita persuasão, trabalhar entre os pobres, saber toda a teologia moderna – mas se tudo isso não vier envolto e não for superado por uma constante devoção a Deus – jamais ganharemos almas.

Segue-se, portanto, que a vida de oração do sacerdote, sua comunhão com Deus, não é simplesmente sua obrigação primária para com a Igreja; é a única condição sob a qual o seu trabalho pode ser feito. Ele é chamado, no dizer do Livro de Sabedoria, para ser “amigo de Deus, e profeta”: e só poderá ser bom profeta quando for um bom amigo de Deus. sua missão é conduzir os homens à eternidade; e como fará isto se não se sentir bem em contato com o eterno? Deve ser um representante da paz de Deus numa sociedade confusa; mas isto será impossível se não tiver o hábito de se voltar às profundezas do espírito onde habita a Presença de Deus.

Sabemos todos disto; mas é difícil nos conservarmos alertas e transformarmos tais exigências em realidade. Quase tudo na vida moderna, e talvez ainda mais na vida do clero de uma paróquia, contribui para criar empecilhos à vida espiritual. Pois a primeira coisa que nos ocorre é o mandamento que recebemos de Cristo de alimentar e conservar o Seu rebanho e fora isso, na maioria dos casos, precisamos de tempo integral. O clérigo fiel vive sob a constante pressão da falta de tempo e o seu trabalho requer muita paciência, interesse, energia e amor. O seu modelo é Aquele que veio para servir. Assim, a separação de períodos diários para comunhão com Deus nunca poderia ser justificada se fosse apenas para o benefício da própria alma do ministro.

Há alguma coisa mais a se dizer, e talvez tudo fique mais claro se falarmos em termos bem específicos. A vida de oração do sacerdote é, de maneira especial, parte do grande mistério da Encarnação. O sacerdote é um dos instrumentos pelo qual o Deus eterno, que se manifestou no tempo, age no mundo, busca, procura, atinge e transforma as almas dos homens. Sua verdadeira posição na paróquia é a de um dedicado agente do amor Divino. O Espírito de Cristo, habitando em sua Igreja, agirá através dele. A liberdade de Deus é absoluta. Ele age através das pessoas que escolhe e por muitas maneiras. O sacerdote contudo se ofereceu para o trabalho de Deus. Poderá alguém cumprir tal tarefa a não ser que sua relação para com Deus, sua comunhão confiante e seu oferecimento perene representem o que há de mais importante na vida? o clérigo deve ser parte da Igreja que ora, participando plenamente dessa vida, integrado no seu ato contínuo de adoração, para que o seu trabalho seja real. O sacerdote tem que trazer o seu povo à Presença de Deus, oferecendo em seu nome o “sacrifício de louvor e ação de graças”. E estes são atos espirituais que exigem daqueles que os realizam vida espiritual profunda e constante busca do alimento da alma. Se os que foram separados para esta obra não colocarem o sobrenatural em primeiro lugar, dificilmente outros o farão. E se na prática é difícil, exigindo de nós cansaço e reajustamento de hábitos diários, é porque Deus não pode ser adorado e servido como deve a não ser que palmilhemos a senda do sacrifício. É certo que a adoração direta de Deus não representa tudo na vocação do clérigo. A ordenação ao Ministério Sagrado é válido tanto para o diaconato como para o sacerdócio. O caráter especial e a graça do diaconato não desaparece quando se torna presbítero. Continua sendo chamado para servir aos irmãos, embora tenha que ir ao altar de Deus: e é esta dupla vocação, para o eterno e para o humano – o amor de Deus e ao amor das almas – que produz a tensão e a riqueza da vida do sacerdote e se reflete em sua prece. O cultivo da vida interior e da disciplina da devoção nunca será algo egocêntrico. É a própria condição do seu trabalho.

É assim necessária a manutenção do equilíbrio entre o visível e o invisível, entre o lado ativo e o contemplativo da vocação religiosa: entrega a Deus na oração, e, como decorrência, amor e trabalho paciente entre os homens. Quando entramos no terreno prático parece que o tempo devotado à oração tirará do sacerdote o interesse devido ao seu povo. A história cristã, naturalmente, contraria esta impressão. É sempre o clérigo cuja vida de oração é profunda e poderosa, devotando mais tempo à comunhão com Deus, que trabalha mais eficientemente para Deus e para as almas. É o que está mais pronto a se esquecer de si mesmo e a fazer sacrifícios. A vocação do sacerdote cristão é sobrenatural. Como poderá cumpri-la se não tiver uma vida sobrenatural? Hoje em dia se fala muito em evangelização, mas antes de conseguirmos eficiente evangelização precisamos ter bons evangelistas. A Evangelização não tem sentido algum a não ser que seja o trabalho de pessoas devotadas a Deus e penetradas pela atração de Deus.

Equipamentos modernos, adaptações e reajustamentos, não são as coisas mais necessárias em nossa Igreja. Necessitamos de almas devotas, de adoradores e de pessoas que se sacrifiquem. Estas qualidades sobrenaturais nos são dadas por Deus nos momentos em que lhe dedicamos atenção. Nelas se encontra a fonte permanente da caridade que nos auxiliará a demonstrar aos outros a beleza de Cristo e ganhá-los para Deus”


Evelyn Underhill - Escritora e Teóloga Mística Anglicana